Bênção
Com o reboliço das aulas, dos trabalhos, do trabalho, dos preparativos, da capa, do traje, das fitas, das horas, das missas, do almoço, do jantar, de tudo e mais alguma coisa, torna-se complicado conseguir criar um espírito de preparação e de clareza sobre o que é a bênção. Mas não posso dizer que não sabia para o que ia, os anos anteriores como espectador proporcionaram uma boa antevisão do que seria, mas é claro que entre o ver e o estar vai uma grande diferença.
Depois de todas as preparações e confusões sou dos primeiros do IST a chegar ao ponto de encontro, o stress de chegar a horas gerado pelos progenitores é sufocante que nem vale a pena contrariar.
Com o passar do tempo mais vão chegando, não éramos um grande grupo, mas para aquela faculdade haver aquele número de pessoas que se dispuseram a estar na bênção já não era mau, foi das maiores representações do IST (um pouco por culpa de Bolonha).
Invariavelmente eram poucas as caras que conhecia e apesar de conhecer algumas a relação não existia, pelo que a preparação foi feita nesses momentos, em silêncio e antecedendo a recepção de umas fitas de última hora e a introdução de um publicitário como engenheiro.
Após a resolução desses problemas iniciamos o caminho de Entrecampos até ao recinto. Durante o caminho vou reflectindo naquilo que foi o meu percurso dentro do IST, das dificuldades e dos momentos que guardo. Não foi um caminho fácil, e esse caminho ainda continua. Houve algumas escolhas que não foram as melhores, alguns acontecimentos que hoje seriam diferentes, mas não os lamento, ajudaram a ser quem hoje sou. É claro que alguns são coisas que não me orgulho, mas talvez haja vida para lá das notas e das cadeiras e nessa vida sinto que não perdi assim tanto.
Dentro do recinto há um misto de sensações, a alegria de ali estar, mas a cabeça ainda a fervilhar com as obrigações que ficaram em stand-by. Tentei afastar esses pensamentos e entrar no espírito de todos, entrar no espírito I, S, IST!
Não deixou de ser estranho o estar ali a gritar em conjunto com outros da mesma faculdade, da mesma escolha profissional, mas sentir que quem me acompanhou não estava ali de traje, capa e fitas azuis, mas sim do lado de fora.
Procuro os meus pais e vejo que seguiram bem as indicações para ficarem com lugar privilegiado. O orgulho está estampado na cara deles, no meu coração o agradecimento pelo esforço deles e o peso enorme de não os desiludir mais. Faço posse para umas fotos e lá sigo para o meio da multidão, começo a ver caras conhecidas e a encontrar pessoas que já não via há imenso tempo. Incrível como no meio de tanta gente os encontros e reencontros foram tantos!
Ainda antes de começar a celebração, reencontro o publicitário que foi engenheiro por um manhã, e acabo por ficar ao pé dele a celebração toda, sempre me sentia mais em casa. É claro que na altura dos gritos havia um membro do Técnico ligeiramente deslocado do grupo, para estranheza dos que estavam à minha volta, mas depois de tanta coisa que ali vi, eu não era de certeza o mais estranho.
Os acontecimentos à volta facilmente distraíam a mente das poucas palavras que se conseguiam perceber, mas apesar disso o importante foi retido e compreendido, e as palavras recitadas para agradecer a bênção marcaram e colocaram-me um sorriso na face.
Apesar de todas as inconstâncias do caminho, venha o que vier é preciso encarar com força e vontade.
Não é o canudo que vai ditar quem somos, nem é o canudo que vai certificar quem somos, apenas simboliza aquilo que sabemos e podemos fazer, o resto é connosco.
Depois sorri, espantado com o que alguém disse: "Vamos lá chocalhar isto!".
Parece ridículo, mas ao mesmo tempo faz sentido.
Claramente que se referia a levantar e abanar a pasta com as fitas, mas eu senti, ao fazer o mesmo gesto e a ver outros a fazer o mesmo, que ao sair dali devíamos "chocalhar" os sítios para onde vamos, era essa a nossa missão.
Entretanto lá chocalhámos com força as fitas, soltamos os gritos estudantis e fizemos voar as capas, terminando assim a celebração com um bonito colorido e uma sensação de que nada estava terminado, muito pelo contrário, apenas mais um passo estava cumprido.
Terminada a celebração seguimos para o ponto de encontro, para aí então estar junto daqueles com quem faz sentido celebrar, aqueles que verdadeiramente partilham as nossas alegrias e frustrações!
Aí já estava tudo está bem, e cada abraço, cada beijo faz mais sentido e tem mais valor. Aqui sim sentia que estava a partilhar verdadeiramente o sentido e a alegria da bênção.
Passámos para o ritual das fotos de mil e uma formas e maneiras (aposto que fiquei em todas a olhar para a máquina errada), e as primeiras tiveram de ser com a menina bonita com aspirações a Ronaldo (mas pelo que ouvi dizer, acho que é melhor ficar pela auditoria).
Depois foi regresso a casa, o caminho ao lado dos pais a descrever as histórias e aventuras e a pensar no que viria a seguir, não no almoço pois as bolachas que levei serviram o seu propósito, mas na motivação e na força que dali sairam e naquilo que ainda faltava caminhar. Saí diferente, saí com mais força, mais vontade e confiança no futuro. Um futuro que se constrói dia a dia num saber para servir os outros e a si mesmo.
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