Domingo à tarde
O domingo é por norma um dia calmo e tranquilo, o fim de semana está a terminar e mais uma longa semana avizinha-se. Por norma nestes dias os planos também costumam ficar afectados e restringidos pelo tempo, mas é nessa altura que nos podemos refugiar em planos alternativos.
Há dias de chuva que nos colocam pensativos, melancólicos e se calhar nesses dias mais susceptíveis e sensíveis a certas situações.
Esse domingo era um desses.
Era um daqueles dias em que não apetece fazer nada e estava bem relutante em relação ao convite para o cinema, estava convicto que ia adormecer a meio mas fui convencido a ir e no fim acabei por agradecer essa insistência.
O filme parecia ser o típico filme de namorados, daqueles que a rapariga vai criticar o rapaz porque ele nunca faz como faz o tipo do filme (à conta disto perdi uma aposta) mas afinal enganei-me redondamente!
O filme, apesar do romantismo, foge claramente a esse estereótipo e tem uma abordagem extremamente interessante sobre o amor, as relações e a morte.
O filme e as conversas que se seguiram foram catalisadoras de algumas reflexões, a primeira grande conclusão (como se já não se soubesse isto), é que só sentimos falta de algo quando não o temos.
É simples directo e sem espinhas. Não há ali lugar a vírgulas, nem a suposições.
As coisas são como são, e a realidade é que se há algo que nos faz falta e não o temos, vamos sentir a sua falta.
Há coisas que julgamos que não nos fazem falta e ao nos sentirmos privados delas sentimos que estamos perdidos, que não há volta a dar.
Parece que tudo perdeu o sentido e orientação. Continuamos o nosso caminho, mas parece que vamos coxos, que algo que nos servia de apoio não está ali.
Parece que vamos sozinhos por uma estrada escura e que deixamos a lanterna em casa.
Não é fácil, custa imenso e questionamos várias vezes porque raio tem de ser assim.
Somos pessoas de hábitos, e quando nos habituamos a algo nem nos damos conta, só vamos perceber que algo está diferente depois de nos vermos privados. Aí sim, percebemos que algo mudou, que há algo diferente.
Também sentimos isto depois de voltarmos ao antigamente. Ao voltar como estava antes, tenho tendência a ver as diferenças, e assim entender melhor que sentia falta de algo, não porque me dava jeito, porque era mais prático, mas porque era algo indispensável e do qual dificilmente me quero ver afastado.
Isto é relevante sobretudo na relação pessoais, as pessoas são importantes na nossa vida e nós não fomos feitos para estar sozinhos.
Há momentos importantes na nossa vida, momentos que nos fazem despertar e nos fazem pensar e sobretudo compreender. Confesso que no Domingo tive um momento desses, um momento em que pensei e reflecti e que compreendi alguns aspectos importantes da minha vida actual.
Muitas vezes é preciso situações destas para nos apercebermos de certas coisas na nossa vida.
Acabei por me aperceber de uma realidade que muitas vezes duvidava, mas que sobretudo não tinha parado para pensar.
É engraçado chegar a conclusões assim, é bom perceber e ter certezas daquilo que sentimos.
A curiosidade matou o gato, mas neste caso a curiosidade salvou a tarde. Não fosse a curiosidade e não saberíamos que a exposição Berardo estava acessível de borla naquele dia. Como belos portugueses que somos adoramos coisas à borla, por isso lá fomos atrás da exposição de borla.
Já não estava num museu há anos, mas ali estava eu a passear entre obras que não compreendia e que decerto custa valores que igualmente não compreendo.
Felizmente passa um grupo de pessoas acompanhadas por uma guia, e nem que fosse por 5 minutos fiquei a ouvir a explicação, pelo menos ia sair dali com a explicação de uma obra. 50 minutos depois estou a sair do museu, não pela porta que entrei mas isso por culpa da acompanhante, mas saimos os dois sem passar pelas obras todas, mas de certeza que saimos os dois bem contentes e satisfeitos pelo tempo empregue.
Acabámos por seguir a guia durante a visita toda, não passámos por todas as obras, mas visitámos todas as secções e todas as obras marcantes.
É completamente diferente uma visita assim, percebemos bem mais o sentido de cada obra, da ideia do artista, do período em que foi feita e do significado que teve.
É uma exposição bem interessante e recomendável, assim como o acompanhar com atenção a explicação dos guias da exposição.
O senhor Berardo pode não saber falar bem português, pode mandar bitaites da treta sobre o Benfica, pode até só saber implicar com a família Jardim Gonçalves, mas que tem ali uma rica exposição disso não haja dúvida e que fica o agradecimento por tentar trazer a cultura de volta aos portugueses.
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